ARTIGO: O trigo na integração lavoura-pecuária

* Por Renato Serena Fontaneli

Produção de carne, leite e grãos de inverno, predominantemente trigo, são as atividades principais na região sul-brasileira, sul da região dos Pampas na Argentina e grandes planícies dos Estados Unidos da América. Nessas regiões, durante o período frio, a disponibilidade de forragem das pastagens nativas e perenes cultivadas de verãos é reduzida. Assim, os cereais de inverno para pastejo podem prover forragem de boa qualidade durante um período de dois a quatro meses.

O trigo é uma das alternativas, pois além da tradicional produção de grãos, pode ser cultivado para forragem ou como duplo propósito (forragem e grãos). Pastagens de trigo são de elevado valor nutritivo durante o outono e o inverno, sendo comparáveis à alfafa em termos de proteína bruta e digestibilidade. Trigos para duplo propósito devem ser semeados antes da época tradicional, propiciando cobertura de solo, fornecendo forragem para produção de carne e leite, e grãos para alimentação animal ou humana. É uma estratégia de diversificação de receita, permitindo aumento da sustentabilidade e maior flexibilidade aos sistemas de produção regional. Essa prática garante colheita antecipada via carne, leite ou lã, ou na manutenção do estado corporal dos animais durante os meses de maior carência forrageira no Sul do Brasil. Além disso, minimiza os riscos inerentes às oscilações climáticas e de mercado, comuns durante o ciclo da cultura, permitindo priorizar a atividade mais rentável conforme as projeções do ano.

Estabelecimento – época de semeadura e densidade – Os cereais de duplo propósito são semeados antes do período recomendado para produção voltada apenas para grãos. Assim, recomenda-se, para o caso do trigo, a semeadura de 40 dias antes da época recomendada para as cultivares BRS Tarumã e BRS Guatambu (variedades tardias) e de 20 dias para as cultivares BRS Figueira e BRS Umbu (variedades semi-tardias). No caso de Passo Fundo, RS, o início da época de semeadura é 1º de junho, portanto as cultivares tardias podem ser semeadas a partir de 20 de abril e as cultivares semi-tardias a partir de 10 de maio. Semeando-se no início da época recomendada para duplo propósito é possível propiciar um período de pastejo, aproximado, de 30 a 60 dias, para as cultivares semi-tardias e tardias, respectivamente, sem afetar sobremaneira a produtividade de grãos.

Quanto a densidade, recomenda-se em torno de 350 sementes aptas por metro quadrado, que representa de 100 a 140 kg de sementes/ha, dependendo do valor cultural (germinação e pureza) e peso de mil sementes.

Adubação – Recomenda-se seguir a indicação da rede oficial de laboratório de solos do estados do RS e SC. Especial atenção se faz necessária na adubação nitrogenada, um dos componentes, juntamente com genética e cortes ou pastejos, responsáveis pela recuperação rápida das plantas após a desfolha pelos animais. É importante lembrar que para cada 100 kg de ganho de peso vivo ou 1.000 kg de leite produzidos, os animais consomem aproximadamente 1.000 kg de forragem seca (MS), com concentração de proteína bruta (PB) superior a 18%, ou seja mais de 30 kg de N, cerca de 60 kg de uréia. Apesar de boa parte dos nutrientes ingeridos pelos animais através da forragem retornam via dejeções (fezes e urina) há uma grande concentração, nas zonas de congregação dos animais, próximos a aguadas, sombra e cochos de minerais.

Manejo para pastoreio – O trigo de duplo propósito deve ser pastejado por bovinos de corte ou de leite quando as plantas estiverem com aproximadamente 30cm de estatura, o que normalmente ocorre entre 40 e 60 dias após a semeadura. Ao pastejar, devem ser preservadas as estruturas para o rebrote, limitando o pastejo até 5 a 7cm de estatura durante o período vegetativo. O ideal é usar o sistema de pastoreio rotativo que propicia maior controle diminuindo o risco de erros no manejo. Não esquecer de aplicar o fertilizante nitrogenado após a saída dos animais. O pastejo deve ser finalizado quando for observada a formação do primeiro nó.

O pastoreio deve ser evitado quando o solo estiver com excesso de umidade.

Manejo para ensilagem – Os cereais de inverno, incluindo o trigo, podem ser manejados exclusivamente para produção de grãos ou para compor pastagens, ou ainda como duplo propósito (pastagem e grãos). Podem ser conservados na forma de feno ou de silagem. Para fenação, recomenda-se o corte no início da emissão das inflorescências, onde compatibiliza-se boa produção de biomassa e bom valor nutritivo. Para obtenção de silagem de planta inteira, recomenda-se colher no estádio de grãos em massa mole, quando além de propiciar boa colheita de biomassa, consegue-se uma boa preservação dos nutrientes via fermentação desejável.

Potencial de produção animal – O manejo conforme preconizado: compatibiliza idade da planta (40 a 60 dias após a emergência no primeiro pastejo rotativo e de 28 a 35 dias nos demais), estatura de planta (entrada dos animais quando as plantas estã0 com 25 a 40 cm de altura e saída dos animais, altura de resteva de 7 a 10 cm) e oferta de forragem de 700 a 1.000 gramas de pasto fresco por metro quadrado, cortado 5 cm acima da superfície do solo. Nessas condições, aproxima-se de 1.500 kg de forragem seca por hectare ( 1,0 kg de pasto fresco por m2 x 10.000 m2 = 1,0 hectare, com teor de matéria seca de 12 a 15%, corresponde a 1.200 a 1.500 kg matéria seca por hectare). Com essa oferta de forragem, que somente consegue-se com densidade de 350 ou mais plantas/m2, os animais pastejam com a “boca cheia”, ou seja, têm alta eficiência de pastejo, colhendo em torno de 70% da forragem ofertada, acima da altura de resteva.

Nessas condições, novilhos de 300 a 400 kg de peso vivo, têm obtido em torno de 1,0 kg de ganho diário (0,65 a 1,60 kg) e produção de leite com vacas leiteiras da raça Holandês de bom mérito genético de 15 a 20 kg de leite.

Em termos de ganho por área, têm sido registrados ganhos de 100 a mais de 400 kg/ha e de 2.000 a 6.000 kg de leite/ha, dependendo do sistema de utilização, pressão de pastejo e finalidade da área no verão, pois quando no sistema de duplo propósito, retira-se os animais no início do elongamento, que nas condições da região do Planalto Gaúcho, ocorre, geralmente, no final de julho e início de agosto.

*Pesquisador da Embrapa Trigo (Passo Fundo-RS) – renatof@cnpt.embrapa.br

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