Entrevista: Quatro décadas de plantio direto no Brasil

* Da ESALQ


Em 6 de agosto, na cidade de São Paulo (SP), ocorreu o 11º Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). O evento reuniu grandes experts do agronegócio brasileiro e, neste ano, homenageou Hebert Bartz, produtor agrícola introdutor do sistema de plantio direto no Brasil. Para falar sobre a importância desse sistema, que esse ano completa quatro décadas no País, a ESALQ entrevistou Antonio Roque Dechen, professor do Departamento de Ciência do Solo (LSO), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. Dechen é vice-reitor executivo de administração da USP e presidente da Fundação Agrisus, Agricultura Sustentável.

ESALQ: Comente o início do sistema de plantio direto

Antonio Roque Dechen – Nos anos 70, no Paraná, o agricultor alemão Herbert Bartz começou a estimular o chamado plantio direto na palha, sistema de aumento na cobertura do solo que impede o escorrimento da água e a perda da mesma. Na época, foi um processo difícil, mas hoje o Brasil conta com mais de 35 milhões de hectares cultivados dessa maneira. Toda a área cultivada com soja no Paraná e no Mato Grosso utiliza-se desse sistema. Pode-se dizer que o Brasil ganhou muito com a adoção desse tipo de cultivo que está completando ano 40 anos.

ESALQ: Quais são as principais vantagens desse sistema para o agricultor?

Antonio Roque Dechen – Entre os ganhos estão a economia do solo, a diminuição do sistema erosivo, o fato de não ter queimas, a melhora das condições de física e de fertilidade do solo e também da parte microbiológica do solo. A principal vantagem para o agricultor é manter a sustentabilidade, não só da produção, mas também da sua propriedade. A partir do momento em que o agricultor não tem um manejo adequado e há o processo de erosão, ele está perdendo algo que a natureza leva centenas de anos para produzir que é um milímetro de solo no seu sistema de formação. Isso leva muitos anos e se perde facilmente em uma grande enxurrada.

ESALQ:  No início, o sistema de plantio direto teve alguns entraves. Entre eles estava a questão de adequação de máquinas agrícolas?

Antonio Roque Dechen – Exatamente, já existia uma tecnologia, uma padronização dos tipos de máquinas e, de repente, foi preciso mudar toda essa estrutura. Além disso, há necessidade de novas técnicas de manejo, como o cuidado com a queima, devido à maior quantidade de palha sobre o solo. De repente, uma pequena fagulha pode ocasionar uma queima enorme e um prejuízo muito grande. O Brasil tem que se prevenir. Afinal, temos hoje, em algumas regiões, principalmente no sul, áreas que estão desertificadas pela intensa utilização agrícola e pela não reposição dos vegetais, que geram aspectos erosivos. Depois, para fazer essa recomposição é muito caro e demorado. Para sermos competitivos, internacionalmente, precisamos oferecer qualidade no material que estamos produzindo.

ESALQ:  Todas as culturas vão bem com plantio direto?

Antonio Roque Dechen – Todas as culturas anuais, de uma forma geral, vão muito bem.

ESALQ:  Esse é um sistema que usa menos água?

Antonio Roque Dechen – Na realidade não é que ele use menos água, mas é que, a partir do momento em que você tem uma cobertura de palha de 20, até 30 cm, a incidência dos raios solares não vai atingir diretamente o solo, diminuindo a evaporação, além de não haver o escorrimento. Quando você não tem o solo coberto, a água vai escorrer e arrastar partículas de solo.

ESALQ:  Quais foram as principais culturas que adotaram esse sistema de plantio direto?

Antonio Roque Dechen – Primeiro o algodão e depois a soja. O algodão porque, na década de 1970, era uma cultura de grande escala no Paraná e em São Paulo. Na época, nós não tínhamos soja, sua cultura estava no início. Eu me formei em 1973 e tive poucas aulas e informações sobre ela. O café, o algodão e a cana eram as culturas de grande impacto na época.

ESALQ:  O sistema de plantio direto ganha força porque ele é bom de fato ou porque, a partir da década de 1970, o mundo todo passou a falar de sustentabilidade na indústria, nas relações humanas, no consumo, na emissão de lixo e gases tóxicos?

Antonio Roque Dechen – A sustentabilidade é o carro chefe. Mas, não existe sustentabilidade se não existir retorno comercial. O agricultor não vai aceitar ter prejuízo na sua produção. Hoje o plantio direto é aceito e aplicado porque, além da sustentabilidade, ele é rentável para os produtores. Esse é o foco. O agricultor está consciente desse fato. Participei na semana passada, em Passo Fundo (RS), da reunião da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, que contou com 600 participantes, a maioria agricultores, todos ávidos por novidades e inovações de como fazer para continuar ampliando seu sistema de plantio direto. Em estados como Paraná e Mato Grosso isso é rotineiro e muito bem adotado. As empresas fabricantes de máquinas agrícolas já tem o seu cenário voltado pra isso.

ESALQ:  Além do plantio direto, que outros sistemas agrícolas pode destacar?

Antonio Roque Dechen – Atualmente, há uma grande evolução no chamado sistema de integração lavoura-pecuária, por meio do qual há a renovação de áreas “degradadas”. Nele, utiliza-se o processo da produção de gado para recomposição de solo.

ESALQ:  A comunidade científica tem se aproximado dessa evolução no campo?

Antonio Roque Dechen – Em São Paulo, existe um grupo de pesquisadores coordenado pelo professor José Otávio Machado Menten, do Departamento de Fitopatologia e Nematologia da ESALQ, chamado Conselho Científico para Agricultura Sustentável, cujo objetivo é disseminar boas práticas agrícolas e trabalhar para a disseminação da tecnologia. Além disso, existe um programa feito pelo pesquisador André Pessoa, o Rally da Safra, que percorre todas as regiões produtoras de soja e de milho fazendo o levantamento da produção, de atividades feitas com o plantio direto, e isso tem levado o País a um cenário de inserção internacional porque a qualidade na produção agrícola passa pela qualidade na gestão do ambiente. Atualmente, os residentes da zona rural estão disseminando-se, gerando um aumento na população das áreas urbanas e na produção agrícola, que, por sua vez, deve ocorrer com eficiência, não apenas a eficiência de aumento de produção, mas com aumento da qualidade e da sustentabilidade dessa produção.

* ESALQ
Entrevista concedida à Alicia Nascimento Aguiar e Caio Albuquerque
Edição: Ana Carolina Miotto
07/08/2012
Crédito: Roberto Amaral (ESALQ/Acom)

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