Amor pela terra – parte 2

Além das vantagens econômicas, o sistema Santa Fé, que na prática é a integração de lavoura e pecuária, permite produzir com a mínima emissão de carbono. O sistema de rodízio implantado na fazenda consistiu em aplicar o método, no primeiro ano, em 200 ha. Depois, em outros 200 ha e assim até completar 600 ha. No quarto ano, o ciclo recomeça com o plantio de grãos novamente nos primeiros 200 ha que receberam o sistema. No entanto, dessa vez, não será preciso utilizar o trator para arar o solo, tampouco será necessário aplicar calcário e gesso, uma vez que a correção do solo já foi feita. O mesmo procedimento se dará nos próximos 200 ha e assim até completar o ciclo novamente.

É o ciclo que torna o método sustentável e, portanto, mais eficiente na recuperação de áreas degradadas do que o Barreirão. O solo permanece rico em matéria orgânica e protegido das chuvas e veranicos, porque o plantio é feito diretamente na palha. O produtor rural economiza no gasto do combustível que seria usado no trator e a natureza agradece. Segundo Miguel Rodrigues, para arar e gradear 600 ha são queimados cerca de 1.500 litros de óleo diesel. Como não haverá necessidade de fazer a preparação do solo, a produção deixa de emitir para atmosfera a quantidade de carbono resultante da queima de 1.500 litros de óleo diesel. “É isso que chamo de agricultura de baixo carbono”, empolga-se Miguel. A fixação de carbono também ocorre porque o solo não é revolvido, já que não é preciso passar o arado. E a economia com insumos, de acordo com cálculos do gerente da fazenda, chega a R$ 840 por ha.

Com a integração lavoura-pecuária, Paolinelli também percebeu que a necessidade de uso de agrotóxicos diminuiu. Há cerca de oito anos, uma praga atacou o milho que havia plantado pelo sistema tradicional, justamente para comparar com o sistema integrado. Para a surpresa dele, a lagarta não se alastrou para o milho plantado pelo sistema lavoura-pecuária. “Nós verificamos que a lagarta não pula a cerca” brinca Paolinelli, “porque ela não consegue andar onde tem braquiária”. Além disso, segundo ele, o uso de agrotóxicos nas plantações consorciadas de grãos e capim diminui a cada ano, porque “se estabelece um equilíbrio biológico do solo, onde a praga tem mais dificuldade de proliferar”.

A implantação do sistema integrado de lavoura e pecuária na fazenda Boa Vista foi uma experiência exitosa. Foram recuperadas praticamente todas as áreas degradadas da propriedade em menos de 10 anos. Em vista do sucesso, Paolinelli arrendou 700 ha de uma fazenda vizinha, onde agora pretende, primeiro, recuperar o solo com a implantação do sistema, para depois colocar mais 1.200 cabeças de gado. Paolinelli pretende, ainda, inserir mais um elemento no sistema integrado: o eucalipto. Além de diversificar a fonte de renda com a venda da madeira, o sistema de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) favorece o micro-clima das regiões onde são plantadas as árvores. Ele chegou a fazer uma experiência plantando eucalipto em um hectare da fazenda e os resultados foram animadores. “Manejado de forma adequada, o eucalipto promove a fertilização e o equilíbrio do solo por meio do seu processo de fotossíntese”, explica.

O passo-a-passo sobre como implantar o Sistema Lavoura-Pecuária-Floresta está descrito no Guia de Financiamento de Agricultura de Baixo Carbono. Qualquer produtor rural interessado em obter o crédito do Programa ABC junto ao Banco do Brasil pode acessá-lo.